Esta antiga póvoa de pescadores da Idade Média,
cujo nome provém de Cascal, que significa monte
de cascos ou pedra miúda, é hoje uma vila
cosmopolita dos arredores de Lisboa.
Conquistada por D. Afonso Henriques em 1153,
era nessa época um aglomerado de reduzida
importância, mencionado no foral de Sintra
datado de 1159 e renovado em 1189
Com o desenvolvimento do litoral português e
o fomento do comércio marítimo a partir do século
XIV, começou a progredir não só como porto
piscatório, mas também como ponto de ligação
com outras povoações costeiras portuguesas do
Norte da Península Ibérica e da Europa. Nessa
época, Cascais beneficiava das transacções
comerciais e do negócio de víveres mantido com
os que, fugindo da pirataria, se refugiavam na
sua costa.
Com D. Pedro I, a povoação desagregou-se do
termo de Sintra e constituiu-se em município
autónomo em 1364, e posteriormente, em 1370, em
cabeça de concelho.
A situaçõa estratégica da vila na defesa
do porto e da baía de Lisboa propiciou também
o desenvolvimento. Cerca de 1594, iniciou-se a
construção da fortaleza, posteriormente
renovada e ampliada segundo um plano de implantação
de estruturas militares defensivas na costa,
especialmente no estuário do Tejo e arredores
da capital.
As transformações provocadas pela
industrialização e transformação do modus
vivendi no século XIX fizeram sentir-se
inicialmente no âmbito das comunicações e do
sistema viário, com a ligação por estrada a
Oeiras ( 1864 ) e a Sintra ( 1868 ).
A decisão da família real de passar o Verão
em Cascais, a partir de 1870, foi motivo para
que pouco a vila se transformasse em estância
de veraneio da corte, da aristocracia e da alta
burguesia. A Cidadela foi modernizada e adaptada
a residência real. Junto dela, ao longo do mar,
nas imediações do actual Clube Naval e da
futura Marina, contruiu-se um passeio ou
esplanada oitocentista a que foi dado o nome de
príncipe de D. Luís Filipe. Cascais contava
ainda com o Palácio dos Duques de Palmela, e a
Casa da Serra, situada no morro de S. Roque, e
estava já em construção o Palácio da
Gandarinha.
Devido à construção do caminho de ferro
Lisboa-Cascais, terminada em 1895, este veio
substituir as morosas viagens de barco com várias
escalas ao longo das praias da linha do Estoril,
permitindo um maior afluxo de população e de
veraneantes. Dotada de energia eléctrica a
partir de 1878 e de comunicações telefónicas
em 1900, a vila começa então a adquirir um
perfil urbano.
A estação ferroviária é um pólo de
expansão. Nas proximidades, abrem-se novos
eixos e arruamentos, com o grande passeio
marginal com esplanada marítima e a Avenida
Valbom. No extremo oposto do aglomerado, nos
arredores da Cidadela, desenvolvem-se novos
bairros, constroem-se casas e integram-se alguns
espaços públicos na nova estrutura.
Junto ao mar erguem-se chalés, palacates,
edifícios românticos, onde a cenografia, o
exotismo e o estilismo se conjugam numa perfeita
integração com a linha da costa, os rochedos e
o mar. O Chalé Palmela e a Casa O'Neil ( Museu
dos Condes de Castro Guimarães ) são exemplos
de soluções deste tipo.
A crescente expansão da área metropolitana
de Lisboa alargou-se até Cascais, que funciona
hoje também como zona-dormitório da capital.
Embora em constante transformação,
determinada pela dinâmica actual, esta vila
mantém características que exprimem um história
original e uma evolução tradicional. Do
primitivo aglomerado, situado na plataforma
sobre a actual praia da Rainha, subsistem vestígios
do traçado e da forma de implantação, embora
as construções tenham sido modificadas e
adulteradas. Uma rua só para peões constitui o
percurso e o eixo comercial mais importante.
Na vila baixa, ao longo da praia dos
Pescadores, as alterações foram mais
profundas. A estrada marginal cortou a relação
directa com o mar e alterou a expressão cenográfica
dos edifícios ribeirinhos. A velha ribeira da
Vinha foi preenchida por um eixo rodoviário. É,
porém, nesta zona que funciona a lota e
subsistem as bases da actividade piscatória. É
ainda ali que se manté a vivência tradicional.
E, no conjunto do aglomerado, persistem edifícios
de diversas épocas, cujos modelos eruditos e
vernáculo testemunham o diálogo entre as
sucessivas etapas e sedimentações históricas
e culturais, mas também topónimos como Beco
Torto, Rua do Poço Novo, Rua dos Navegantes
mantêm presente uma história antiga rica de
experiências.